Mãe, brinca comigo!

Muitos pais se queixam de que, com a carga de trabalho excessiva, quando chegam em casa à noitinha tudo que querem é descanso…

Mas diante dos apelos dos filhos, acabam se sentindo obrigados a brincar com eles, mesmo sem vontade. Esse conflito é natural. Afinal, sabemos que a convivência com os filhos é fundamental. O problema é exatamente o fato de que os pais se sentem obrigados a brincar, como uma forma de compensação por ficarem ausentes durante o dia.

Não há dúvida de que é bom e importante conviver com os filhos. Momentos em família são fundamentais, mas é também fundamental para trocas afetivas gostosas e de aprendizagens sociais essenciais para o equilíbrio emocional no futuro. É na convivência que a criança aprende a ceder e a exigir; a dar e a receber; a ouvir e a ser ouvida e, especialmente, é nessa prática que aprendem o equilíbrio entre cada uma dessas difíceis aprendizagens. Também é aí que passam a entender o que significa afeto, apoio, amizade. E para as crianças menores, que não entendem ainda o sentido das ausências dos pais, esses momentos acabam afastando os medos e formatando a segurança com base na presença constante ao final do dia.

Poderíamos ficar horas relacionando tudo de bom que resulta da convivência amorosa harmônica. No entanto, a preocupação que os pais referiram é específica: acabam brincando com os filhos por obrigação e não porque realmente estão com vontade, e isso os incomoda.  Chama-me a atenção o fato de que os pais se sintam devedores dos filhos porque trabalharam. Não era para se sentirem assim, já que é o trabalho que propicia o pão nosso. E é importante colocar desde cedo as crianças a par dessa realidade. É saudável.

Conviver, como diz a palavra, significa viver com, viver junto. Então, por tudo de bom que representa, devemos mesmo reservar parte do nosso tempo para os filhos. Mas não precisa ser brincando com eles, como se fôssemos nós também criancinhas. Se você gosta e curte, ótimo! Adora bater uma bolinha com o Júnior? Então beleza! Ama sentar no chão com sua filhotinha e ficar trocando roupinha e fazendo comidinha para as bonecas? Faça isso! Mas se isso o aborrece, não o faça! Descubra o que pode ser legal para os dois e desfrute desse momento de forma prazerosa. Prazer a dois, bem entendido… Nem é legal pegar a criança e levá-la para percorrer e assistir sua longa caminhada, loja em loja, pelos shoppings da vida, que criança precisa é de correr e brincar. Nem é legal ficar fingindo que tem cinco anos e tentar brincar como ele, mas completamente enfadado. Até porque a criança sente e percebe direitinho quando você está bem a seu lado – e quando não está. E poderá confundir seu tédio com falta de amor. E saiba que quanto mais ela sentir isso, mais exigente se tornará para ter certeza de seu carinho. Então, se o que você curte é desenhar, desenhe com ela. Mas, se não curte nada do que uma criança faz, acolha-a a seu lado. Não saia com ela para programas que a entendiam, menos ainda os que são inapropriados para a idade, porque só estará invertendo a situação, certo?

O que as crianças precisam é da sua presença – inteira e satisfeita por estar lá – brincando com ela ou simplesmente lado a lado em atividades apropriadas para cada um. Apenas façam algo em conjunto, você e seu filho. Incentive-o a trazer seus brinquedos e faça-a sentar-se a seu lado enquanto você termina aquele relatório, ela faz as montagens que quiser. E ambas viverão felizes – e juntas – para sempre!

Tania ZaguryMestre em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; Filósofa, graduada na Universidade Estadual do Rio de Janeiro; Professora de Psicologia da Educação, Sociologia, Filosofia e Didática.

 

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